quarta-feira, 26 de agosto de 2009

8 - Constantinopla IV

CONCÍLIO DE CONSTANTINOPLA IV
(VIII Ecumênico)



Este oitavo concílio ecumênico foi reunido em Constantinopla no ano 868 - Convocado pelo imperador Basilio; e celebradas suas sessões na basílica da Santa Sofia.

Panorama histórico


Em pleno desenvolvimento do século VIII, já avançada a idade Média, as mudanças políticas na Europa eram muito complexas; afiançou-se o indiscutível domínio papal no Ocidente. devido a que o papado via um perigo no poderio dos lombardos no sul da Itália, o papa Zacarias (741-752), em procura de ajuda e amparo, estreitou relações com o reino dos francos, legitimando a coroação do Pepino o Breve, quem tinha destronado ao último rei da dinastia merovíngia, constituindo-o em protetor de Roma. Breve, e em troca do respaldo recebido, Pepino cedeu ao papado os territórios invadidos do Encharcado grego e a Pentápolis, arrebatados à ocasião aos lombardos, plantando deste modo a semente dos posteriores Estados Pontifícios.
A aliança franco-papal obviamente era mau vista no Oriente, mas isso não foi obstáculo para que em 25 de dezembro do ano 800, o papa Leão III coroasse em Roma a Carlo-Magno, filho primogênito do Pepino o Breve, como Imperador do Ocidente, feito que foi considerado por Bizâncio como uma traição, vendo em Carlos I a um impostor.
Tudo isso ia constituindo fortes raízes para o rompimento entre o Oriente e Ocidente. Recorde-se que com Carlo-Magno o cesaropapismo recebeu uma forte pancada nas costas, se tivermos em conta que ele, apoiando-se no livro "Do Civitate Dei" (A Cidade de Deus), de Agustinho de Hipona, considerava seu Império como um Estado divino, no qual ele era a cabeça.
Da concepção destes poderes, o imperial e o papal, aliados mas no fundo opostos e impulsionados por suas respectivas ambições, desprende-se a variabilidade de sua conflitiva coexistência. Quem manda na cristandade feita Estado? Quem manda no Império, se depois do imperador existe um poder papal que coroa os imperadores do Ocidente?
Os territórios dos Estados Pontifícios foram generosamente alargados com a doação que Carlo-Magno fizesse ao papa Adriano (772-795), aumentando a hegemonia papal sobre o Ocidente do continente europeu. quanto mais incrementava o papa romano seu poder temporário e jurisdicional, quanto mais minguava seu caráter espiritual, pois era tanta a desorientação reinante e o desconhecimento da economia de Deus, que a vida religiosa chegou a ser controlada pelo poder civil, e a nomeação de arcebispos por parte de Carlo-Magno e seus sucessores degenerou em que surgissem Igrejas feudais e arcebispais.
Daí que os bispos começaram a procurar a maneira de sacudir-se daquelas ingerências seculares, e apelaram a Roma; mas se tropeçaram com que ainda no século IX Roma carecia dos instrumentos jurídicos adequados para respaldar essa posição, pois ainda não estava clara a jurisdição de Roma sobre as demais Igrejas do Império.
Mas os gênios do romanismo resolveram remediar isso inventando uns falsos documentos chamados historicamente "Fraudes pios" ou "Doações pias", ou "Pseudo-decretais" chamadas isidorianas, dentro dos quais se encontrava a "Doação do Constantino"*(1), por meio dos quais o papa romano tinha perpétuo direito sobre a cidade de Roma e todas as províncias, distritos e cidades da Itália e do Ocidente.
*(1) Remeto ao leitor a meu livro "A Igreja de Jesus Cristo, uma perspectiva histórico profética", capítulo IV, Tiatira. Ali encontrará mais ampla informação sobre as famosas fraudes pios.
O objetivo principal destas fábulas tidas por documentos autênticos, era assegurar a posição dos bispos e do clero, guardando-os da intromissão dos laicos; mas os próprios bispos que tinham apelado a Roma e tinham aceito as fraudes pios, tarde já se deram conta que tinham sido vítimas de seu próprio invento, pois o terrível jugo imposto por Roma, resultou pior que o dos reis e príncipes feudais.*(2)
*(2) O poeta italiano lhe Dante Alighieri, mesmo desconhecendo a falsidade destes documentos, diz em seu famoso livro A Divina Comédia, "Inferno", canto XIX: "Ah, Constantino! A quantos males deu origem, não sua conversão ao cristianismo, a não ser a doação que de ti recebeu o primeiro papa que foi rico!"

Estes bispos ignoravam o poder absoluto dos papas, o qual achou legitimação nas falsas Decretais, estabelecendo-se definitivamente a supremacia espiritual e temporal dos papas sobre todos os bispos e governantes seculares da cristandade, convertendo-se assim Roma no verdadeiro centro da cristandade medieval.

Antecedentes


A imperatriz Teodora, na ocasião regente de seu filho Miguel III, nomeou a Ignácio como patriarca de Constantinopla; mas a integridade moral deste me chocava com as manobras e a conduta dos cortesãos, em especial com Bardas, o desenfreado tio do monarca, a quem Ignácio negou a comunhão, sucesso pelo qual foi destituído o patriarca no ano 858, e substituído por Fócio, um nobre elevado à fila patriarcal do cargo civil de chanceler imperial; para o qual, em uma semana escalou todos os cargos hierárquicos eclesiásticos. Como conseqüência se dividiu o clero bizantino entre partidários de Ignácio e partidários de Fócio, com as sabidas perseguições e destituições dos bispos amigos de Ignácio, circunstância que levou a reunir um sínodo em Constantinopla no ano 861, a fim de esclarecer as coisas, ao qual assistiram representantes do bispo de Roma.
Embora Fócio teve eventualmente o apoio romano para permanecer no cargo, entretanto tinha muito presente que devia encarar-se com as pretensões do papado. Para esse tempo as rivalidades entre Roma e Bizâncio, com suas poderosas e atrativas influências religiosas, rituais e políticas, já pareciam irreconciliáveis. Fócio foi repudiado e condenado pelo papa Nicolau I (858-867) e um sínodo romano do ano 863, papa que apelava às falsas Decretais Isidorianas para impor sua soberana vontade. O imperador seguia respaldando a Fócio, e a sua vez convocaram um sínodo em Constantinopla no ano 867, que sob a presidência de Fócio, condenou a Nicolau I, acusando-o sobre tudo de falsificação do credo niceno, aduzindo que os latinos tinham introduzido no Credo a palavra "Filioque" (e do Filho), no sentido de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.
Mas as coisas deram uma volta em Bizâncio, pois Fócio, já sem seus amigos mais influentes na corte, viu-se obrigado a renunciar devido a que emerge Basílio o Macedônio (867-886) e chega ao poder imperial após assassinar a Bardas e mais tarde a Miguel III, voltando Ignácio à sede patriarcal.

O concílio

Basilio, o novo imperador, ficou de acordo com o novo papa, Adriano II (867-872), a fim de convocar um concílio, mas com a condição papal de que os legados romanos presidissem as sessões; mas o mais grave do assunto foi que o papa exigiu que toda a assembléia conciliar assinasse um escrito dele, o "Liber satisfaccionis", o qual confirmava o primado da sede romana.
Com escassa assistência, este concílio iniciou suas reuniões em 5 de outubro do 868 até em 28 de fevereiro do seguinte ano, na basílica Hagia Sophía (Santa Sofia). Seus principais acordos se podem resumir nos seguintes:
- Foi condenado Fócio, em sua presença.
- À tradição eclesiástica e ditos patrísticos foi concedido a mesma autoridade que a Palavra de Deus transmitida pelos Apóstolos.
- Foi ratificada a legitimidade do anti-bíblico culto às imagens, anatematizando ao que não o fizesse.
- Este concílio definiu que nenhum capitalista do mundo removesse de sua sede aos patriarcas, principalmente ao papa romano, e seguindo a ordem, aos de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém.
- Estabelece, no cânon 21, a superioridade do concílio sobre o papa.
Como vemos, a convocatória, desenvolvimento e acordos deste concílio têm um transfundo eminentemente secular. O homem, ao apartar-se cada dia mais de Deus, por muito eclesiástico que seja, como muito representante de Deus que pretenda ser, atua impulsionado por sua natureza caída; e daí que, sem a intervenção da vontade de Deus e muito longe dos princípios bíblicos, nomeiem e condenem muitas vezes a um patriarca Fócio, tenham a autoridade da Palavra de Deus ao mesmo tempo que os ditos e tradições dos homens, se esquecem de adorar a Deus e obriguem a outros sob anátema a adorar às imagens, e cuidem de que ninguém os deponha de seus elevados postos, cargos de linhagem inventados pelos próprios homens.
Pela Palavra de Deus, sabemos que o Senhor aborrece o nicolaísmo. "Mas tem isto, que aborrece as obras dos nicolaítas, as quais eu também aborreço". Diz à igreja em Éfeso em Apocalipse 2:6, quando os nicolaítas começavam a obrar, mas logo vemos no versículo 15, que essas práticas se converteram em doutrina, e o Senhor diz à igreja em Pérgamo: "E também tem aos que retêm a doutrina dos nicolaítas, a que eu aborreço". Infelizmente o nicolaísmo continuou até nossos dias e se tornou um câncer na cristandade moderna.

Rompimento entre o Oriente e Ocidente


Apesar de ter sido anatematizado, Fócio obteve a amizade com o novo imperador e com o Ignácio, a quem aconteceu na sede patriarcal de Constantinopla depois da morte deste em 877; e para que sua pessoa fosse totalmente reivindicada, convocou um novo sínodo em Constantinopla. O papa João VIII (872-882), enviou representantes a este sínodo, e reconheceu a Fócio, em troca de que os missionários bizantinos abandonassem a Bulgária em favor dos de Roma.
Este sínodo reconheceu a Fócio como legítimo patriarca bizantino. Os legados papais repudiaram a atitude que tinha tomado o anterior papa Adriano II respeito de Fócio; mas se iniciou um irreversível divórcio entre a cristandade oriental e a ocidental, mais se se tem em conta que as "Decretais pseudo-isidorianas" foram impugnadas no Oriente desde um princípio. depois disso seguiu um possante desenvolvimento da cristandade oriental com sua expansão na Bulgária, Rússia, os países Bálticos, e até no sul da Itália, frente a uma cristandade latina temporalmente adoecida, devido ao embate dos muçulmanos e a debilidade de seu aliado, o império carolíngio dos francos; de maneira que sobreveio a ruptura formal entre Roma e Constantinopla já entrado o século XI.
Todas essas rivalidades e ciúmes se consolidaram nos tempos do papa Leão IX (1048-1054), enquanto que no Oriente o patriarca era Miguel Cerulário, quem se opôs a Roma. Por um lado o papa ataca os costumes do clero oriental, sobre tudo porque se casavam, em tanto que Cerulário era um ciumento defensor da liberdade da Igreja, tanto frente ao Estado como do papado romano. Isto lhe valeu o desterro e a morte. além das que viemos insistindo ao longo dos capítulos anteriores, as causas da ruptura total e definitiva das cristandades bizantina e a latina, não obedecem histórica e teologicamente a causas fundamentais, de peso, a não ser a rudimentares pareceres e nimiedades, tais como que o clero ocidental se fazia a barba e os popes orientais não, assuntos sobre o dia de jejum, o comer certas carnes, o uso do pão ázimo na eucaristia, e outras coisas pelo estilo.
Como Cerulário se negasse a aceitar o primado romano, apoiado na espúria "Doação de Constantino", o papa Leão IX enviou a Constantinopla uma bula de excomunhão, a qual foi colocada no altar da Basílica da Santa Sofia, em 16 de julho do ano 1054. Com este gesto, Roma renuncia a até aí verdadeira expressão de catolicidade da Igreja, e inaugura a época de catolicidade romana. Como resposta, Miguel Cerulário e com ele a cristandade oriental, ao ano seguinte celebraram um sínodo que se encarregou de excomungar a sua vez ao papa Leão IX; e cada uma dessas facções da cristandade mutuamente se seguiram considerando cismáticas. Tenha-se em conta que Miguel Cerulário também abrigava sérias aspirações de um papado oriental. Essa mútua excomunhão desses líderes do catolicismo romano e a ortodoxia oriental protocolizou o que historicamente se conhece como o Cisma do Oriente, divisão que perdura até hoje, e que causou até derramamento de sangue.

Outras conseqüências

Pese a todas as dificuldades, controvérsias, enganos e baixezas, até aqui se havia buscado o entendimento e a unanimidade no reconhecimento dos concílios ecumênicos que de algum jeito expressavam a vida da Igreja universal antiga. Depois do rompimento definitivo, já em plena Idade Média, Roma só tem como ecumênicos seus próprios sínodos; de maneira que os que se seguem os continuamos comentando com essa condição, devido a que revestem especial interesse pelo processo geral de corrupção da verdade evangélica, e pelo desenvolvimento da cristandade ocidental que corresponde a todos. A palavra profética na própria Bíblia nos descreve como se prostituiu o povo de Deus com os gentis, e vemos na história como Deus começa a trabalhar para restaurar a Sua Igreja a partir da Reforma. Todos os concílios tidos por Roma como ecumênicos repercutem até dentro do protestantismo, e ao analisá-los se esclarecem as raízes, causas e origens de muitas das práticas que o povo tem como autênticas de Deus, dentro e fora do catolicismo romano.
Por outra parte, nos momentos atuais o processo de restauração da Igreja bíblica transcende os limites do protestantismo histórico, pois este não alcançou a encher as expectativas bíblicas da autêntica Igreja do Senhor Jesus Cristo; de maneira que foi apenas um elo. Faz já quase duas centúrias que o Senhor tirou do protestantismo um cristianismo de vanguarda, que expressa a autêntica comunhão e unidade do Corpo de Cristo, onde só Ele é a Cabeça.
Note-se que até aqui, todos os concílios ecumênicos foram realizados no Oriente, cuja cristandade quer ser a guardiã da fé antiga, a ortodoxa; não assim Roma, cheia de cartas e escritos papais, com suas falsas decretais a bordo, que deram ao papado as bases canônicas para erguer-se durante séculos sobre toda a cristandade ocidental; de maneira que seguimos falando do desenvolvimento de uma cristandade no cativeiro babilônico, onde tudo estava impregnado do romano, da qual Deus seguiu trabalhando para tirar sua Igreja do cativeiro.
Então a partir daqui entramos plenamente no período católico romano, pois Roma, livre já de toda crítica e oposição, com um respaldo político diferente do imperador de Constantinopla, como é o dos imperadores carolíngios dos francos, encontrava-se já em pleno poder e faculdade para desenvolver uma monarquia universal do papado romano. Agora a cristandade ocidental perde seu sentido católico, girando para o romano. Com o tempo no Ocidente se confunde o católico com o romano, e tudo deve girar ao redor de um personagem que, entre seu muitos títulos, adotou-se o de "Vigário de Cristo", e as pessoas crêem, pois nessa época, muito mais que agora, ignorava-se em geral o conteúdo bíblico do evangelho e muito pouco se sabia da pessoa do Senhor Jesus, de Sua obra, de Seu ministério, pelo que tem feito por nós, de que o verdadeiro Vigário de Cristo é o Espírito Santo. Mas o Senhor esteve trabalhando incansavelmente para restaurar as coisas. A construção da casa do Senhor seguiu seu curso; e oportunamente o Senhor começou a levantar apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, que edificassem aos Santos "para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo".

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